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A Sanidade

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“…quando não temos a flexibilidade necessária para nos rirmos da vida, é a morte que acaba por se rir de nós.”

Em muito boa hora esse texto do João Pereira Coutinho, na Folha.

pra quem não tem paciência de ler tudo ou não sofre de “pensamentos desarranjados” , os “vômitos do cérebro”, coloco aqui, antes do texto, o resumo/trechos, a parte que me é mais útil :)

– A palavra mais importante na gramática da sanidade: Flexibilidade. Diz Philippa Perry, no livro “How to Stay Sane”, citado por Coutinho. E ele destrincha facilmente:

“…olhar para os nossos princípios com uma boa dose de ceticismo e ironia. Não nos levarmos demasiado a sério. E, sobretudo, não levar a vida – frágil, fugaz e nem sempre rósea – demasiado a sério”

Pra trilha sonora, eu ia colocar aqui a música PDA, do Interpol, que tava tocando no Random do iTunes enquanto eu lia o texto e me parecia bem adequada. Mas agora está tocando, por incrível que pareça, Alladin Sane, do David Bowie. Vai entender como essas coisas acontecem…

 

E não me sai da cabeça o episódio 9 do seriado The Big Bang Theory (S01E09), que assisti ontem na madrugada…. e que me peguei identificado com um pedaço em cada um dos personagens. Consegui ficar deprê chorando assistindo a uma comédia. Mas o resumo é esse mesmo… conseguir rir da desgraça própria, como a maioria faz com a alheia. E é por isso que deve ter surgido a Comédia, na Grécia.

 

“Apologia da Flexibilidade (João Pereira Coutinho)

É sem dúvidas uma lamentável tragédia: Jacintha Saldanha era enfermeira em um hospital de Londres. Recebeu uma ligação de dois radialistas australianos que se fizeram passar pela rainha Elizabeth 2ª e seu filho, o príncipe Charles.

A intenção dos radialistas era obter informações sobre a gravidez de Kate Middleton. Jacintha acreditou na pegadinha, passou a ligação a uma colega do hospital. Que revelou o estado de saúde da duquesa com pormenores.

Ninguém sabe o que se passou nas horas seguintes. Exceto que Jacintha Saldanha lidou mal com a brincadeira e apareceu morta. A polícia suspeita de suicídio.

Existem duas formas de olhar para o caso. A primeira é seguir o coro dos indignados, denunciar a cultura pop pela sua vulgaridade mendaz e até pedir a cabeça dos dois radialistas.

Mas existe uma segunda forma de olhar para o mesmo caso. De preferência, lendo um pequeno grande livro que até a circunspecta revista “The Economist” elegeu como um dos melhores do ano.

Foi escrito pela psicanalista Philippa Perry e o título diz tudo: “How to Stay Sane” (como se manter são, Macmillan, 160 págs.).

Primeiras conclusões: a “sanidade” não pode ser confundida com noções pedestres de “felicidade individual”, vendidas por analfabetos infelizes em manuais de autoajuda.

Muito menos se confunde com variações mais modestas de “normalidade”: a pretensão de definir o que é a “normalidade” não passa de um sintoma de anormalidade.

Para Philippa Perry, que escreve o ensaio com um pé na neurologia, outro na psicanálise, sem esquecer os ensinamentos imperecíveis dos Clássicos, “sanidade” pressupõe equilíbrio entre a rigidez dos nossos princípios e o caos da vida como ela é.

Ou, em linguagem platônica, “sanidade” é saber usar a razão para que nenhum dos dois cavalos que puxam a quadriga da alma -o cavalo do Espírito e o cavalo do Apetite- possam tomar, por si só, as rédeas da marcha.

Claro que os genes e a constituição orgânica do indivíduo têm uma importância decisiva nesse grau de sanidade.

A esse respeito, relembro um texto lido há uns anos, num tratado sobre a história da loucura, e escrito por um médico do hospício inglês de Bedlam em 1816 que nunca mais esqueci. Cito de cor: os pensamentos desarranjados, escrevia o doutor William Lawrence, têm a mesma relação para o cérebro que os vômitos para o estômago, a asma para os pulmões e qualquer outra maleita para o seu órgão correspondente.

Quando li essa passagem, sublinhei-a com um ponto de exclamação. Ou talvez com um ponto de lamentação: quantas vidas não teriam sido poupadas à culpabilização, à vergonha e ao sofrimento se as neurociências, pateticamente entretidas a aplicar “mitos gregos às partes íntimas” (obrigado, Nabokov), tivessem olhado mais cedo para o seu órgão correspondente?

Divago. Ou talvez não: porque se os genes têm importância para certas maleitas, não terão para todas.

E, por vezes, somos nós, seres racionais, que devemos procurar a palavra mais importante na gramática da sanidade. “Flexibilidade”, escreve Philippa Perry.

Que o mesmo é dizer: olhar para os nossos princípios com uma boa dose de ceticismo e ironia. Não nos levarmos demasiado a sério. E, sobretudo, não levar a vida -frágil, fugaz e nem sempre rósea- demasiado a sério.

Na triste história de Jacintha Saldanha, é fácil criminalizar os dois radialistas. É fácil criminalizar uma brincadeira. É fácil acreditar que, sem uma pegadinha daquelas, a vida de Jacintha continuaria harmoniosa e feliz.

Duvido. Muito. E a única coisa que lamento é não ter existido ninguém -um colega de hospital, um amigo, um familiar, até um doente – que não tenha conferido a uma mera brincadeira a sua real dimensão.

E que, mesmo respeitando os princípios de verdade e honradez que faziam parte do código da enfermeira, não a tenha levado a rir de uma simples pegadinha. Porque nenhuma pegadinha daquelas justifica um suicídio.

No fundo, talvez seja essa a única moral da história: quando não temos a flexibilidade necessária para nos rirmos da vida, é a morte que acaba por se rir de nós.”

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